Diálogos Executivos debate desafios no combate às fraudes em OPME dez anos após a “máfia das próteses”

Diálogos Executivos debate desafios no combate às fraudes em OPME dez anos após a “máfia das próteses”

Encontro promovido pela FenaSaúde reuniu especialistas para discutir avanços, lacunas e os próximos passos no enfrentamento às fraudes na saúde suplementar

Foto: Antonio Augusto

“Dez anos depois, o desafio não é mais provar que o problema existe, é ter a coragem de conectar o que já sabemos, de transformar diagnóstico em sistema.” A afirmação do diretor-executivo da FenaSaúde, Bruno Sobral de Carvalho, sintetizou o espírito do debate promovido pelos Diálogos Executivos FenaSaúde, realizado no dia 24 de agosto, na sede do Instituto Consenso, em Brasília.

O encontro reuniu dirigentes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), representantes de entidades médicas e da indústria de dispositivos médicos para discutir os avanços e os desafios que ainda persistem no combate às fraudes envolvendo órteses, próteses e materiais especiais (OPME).

Uma década após a chamada “máfia das próteses” expor um esquema de fraudes e superfaturamento em procedimentos médicos, a avaliação dos participantes é de que o Brasil avançou em mecanismos de controle e regulação, mas ainda precisa superar a fragmentação das informações e ampliar a integração entre instituições.

Foto: Antonio Augusto

Os números apresentados pelo economista André Médici, CEO da Universal Health Monitor, ajudam a dimensionar o problema. O mercado de órteses, próteses e materiais especiais movimenta cerca de R$ 19,7 bilhões por ano no Brasil. Estimativas apontam que aproximadamente 20% desse valor, cerca de R$ 4 bilhões, pode estar relacionado a fraudes.

Médici destacou, porém, que o país ainda não dispõe de uma base nacional capaz de mensurar com precisão as perdas decorrentes exclusivamente de fraudes em OPME. “O Brasil continua sem uma série nacional de eventos e perdas atribuídos exclusivamente à fraude de OPME.”

Para o economista, a vulnerabilidade está relacionada à fragmentação das diferentes etapas do processo, desde a indicação da cirurgia e a escolha do dispositivo até a negociação de preços e o acompanhamento do paciente. Quando essas informações não estão conectadas, aumentam as assimetrias e diminuem as possibilidades de prevenção.

Nesse cenário, Médici defendeu uma evolução dos modelos tradicionais de fiscalização para uma auditoria baseada em dados e prevenção de riscos, capaz de identificar inconsistências antes que o prejuízo se concretize.

Foto: Antonio Augusto

O diretor-presidente da ANS, Wadih Damous, apontou a necessidade de ampliar a cooperação entre os órgãos que atuam na regulação e fiscalização do setor. “Falta uma integração maior entre as agências, entre essas instâncias”, destacou.

Durante o encontro, Damous destacou a importância do compartilhamento de informações entre as instituições e defendeu uma atuação mais coordenada. A proposta envolve aproximar órgãos como ANS, Anvisa, CADE e Ministério Público para fortalecer mecanismos de prevenção e enfrentamento às fraudes.

A gerente-geral de Tecnologia de Produtos para Saúde da Anvisa, Vivian Morais, apresentou os avanços do Sistema Único de Identificação de Dispositivos (UDI), que começou a operar em março deste ano e já reúne cerca de 15 mil produtos.

Foto: Antonio Augusto

A ferramenta permite ampliar a rastreabilidade dos dispositivos médicos e, com a integração progressiva aos demais sistemas do setor, pode contribuir para identificar discrepâncias de preços e outras inconsistências ao longo da cadeia. “Um marcapasso vendido no Rio Grande do Sul por 10 mil pode estar sendo vendido na Amazônia por 200 mil, e é o mesmo modelo.”

Para os participantes, mecanismos de identificação e rastreabilidade são importantes não apenas para a segurança sanitária, mas também para ampliar a transparência e qualificar a gestão dos recursos destinados à saúde.

O diretor de Defesa Profissional da Associação Paulista de Medicina (APM) e da Associação Médica Brasileira (AMB), Marun David Cury, abordou diferentes modalidades de fraude, incluindo o pagamento de comissões e a reutilização de materiais de uso único.

Foto: Antonio Augusto

Para ele, o enfrentamento do problema também passa pela conscientização dos pacientes e pela ampliação do diálogo com a sociedade.

Representantes da indústria, entre eles o presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI), Ronaldo Sampaio, defenderam maior clareza nas relações entre hospitais, fornecedores e operadoras, com o fortalecimento da contratualização e da transparência nas negociações.

Transformar diagnóstico em sistema

Foto: Antonio Augusto

Ao longo do encontro, ficou evidente que o Brasil dispõe hoje de diferentes ferramentas e estruturas que podem contribuir para o enfrentamento às fraudes: órgãos reguladores, mecanismos de controle, sistemas de identificação, canais de denúncia e bases de dados.

O principal desafio, segundo os participantes, é integrar essas estruturas.

A discussão promovida pelos Diálogos Executivos reforça a importância de aproximar os diferentes atores da saúde suplementar para construir soluções capazes de combinar tecnologia, governança, transparência e cooperação institucional.

Ao sediar o encontro, o Instituto Consenso contribui para ampliar esse diálogo e estimular a construção de caminhos que fortaleçam a sustentabilidade e a integridade do sistema de saúde suplementar.

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