Crise fiscal, eleições de 2026 e saúde suplementar dominam mais uma edição do Diálogos Executivos promovido pela FenaSaúde

Especialistas apontam perda de confiança na economia, mudanças no cenário eleitoral e desafios estruturais que podem impactar o crescimento do país e o futuro da saúde suplementar

Foto: Luiz Roberto

A combinação entre incerteza fiscal, rearranjos no cenário político e transformações da economia global deve moldar os rumos do Brasil nos próximos anos. Esta foi a avaliação feita por economistas e especialistas em política durante mais uma edição do Diálogos Executivos, promovido pela FenaSaúde com apoio do Instituto Consenso, nesta quinta-feira (6/8), que reuniu representantes do mercado, da academia e do setor de saúde suplementar para discutir os desafios do país às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.

O evento contou com a participação do economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia e sócio do Fundo Gauss Zaftra; do advogado Murillo de Aragão, CEO da Arko Advice e presidente do Instituto Brasileiro de Direito Legislativo; e da economista Zeina Latif, doutora pela USP, colunista de O Globo e sócia-diretora da Gibraltar Consulting. Os debates foram mediados pelo jornalista Luiz Rila e por Bruno Sobral de Carvalho, diretor-executivo da FenaSaúde e conselheiro do Instituto Consenso.

Logo no primeiro painel, Maurício Moura e Murillo de Aragão traçaram um diagnóstico do ambiente político e

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fiscal brasileiro. Entre os fatores apontados como sinais de deterioração da confiança na economia estão o aumento do número de CPFs cancelados na Receita Federal,  interpretado como reflexo da saída de contribuintes de maior renda; e a crescente dependência da dívida pública em relação ao mercado doméstico.

Os especialistas também chamaram atenção para uma mudança no comportamento dos partidos políticos. Com a maior parte dos recursos do fundo eleitoral concentrada nas bancadas do Congresso, as legendas passaram a priorizar a eleição de deputados federais, reduzindo o interesse pela disputa presidencial. Como consequência, o Brasil deverá registrar o menor número de pré-candidatos à Presidência da República desde a redemocratização.

Ao analisar a dificuldade do país em promover mudanças estruturais, Murillo de Aragão resumiu o impasse em uma frase: “Nenhuma reforma no Brasil resolve o problema, ela sempre atenua o problema, porque ninguém deixa.” Segundo ele, a quantidade de atores com poder de veto torna qualquer reforma ampla um processo lento e limitado.

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O debate também destacou o protagonismo do Senado nas eleições de 2026, especialmente pelo papel constitucional da Casa em processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao apresentar pesquisas de opinião, Maurício Moura observou que grande parte do eleitorado ainda desconhece os candidatos ao Senado e explicou uma característica do sistema eleitoral brasileiro: “O Brasil é um dos poucos países do mundo que vota de maneira espontânea.” Segundo ele, como os nomes dos candidatos não aparecem previamente ao eleitor, muitos brasileiros decidem o voto apenas no dia da eleição.

Outro ponto considerado inédito pelos painelistas foi o peso da conjuntura internacional na disputa eleitoral.

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Temas como a política tarifária dos Estados Unidos, os conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia passaram a influenciar o debate público, sobretudo entre eleitores mais informados. Na avaliação dos especialistas, porém, a percepção da população sobre a economia continua sendo mais determinante para o resultado das eleições do que os indicadores técnicos.

No segundo painel, Zeina Latif analisou os impactos do cenário econômico internacional sobre o Brasil. Para a economista, embora a inflação global tenha perdido força após a pandemia, o ambiente externo continua marcado por instabilidade geopolítica. Ainda assim, ela avalia que o país ocupa uma posição relativamente favorável por ser um importante exportador de petróleo e commodities agrícolas.

Segundo Zeina, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13% no primeiro semestre em

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razão das tarifas impostas pelo governo Donald Trump, movimento parcialmente compensado pelo crescimento de 15% das vendas para outros mercados internacionais.

A economista também destacou o potencial estratégico do Brasil na produção de minerais críticos e terras raras, insumos considerados essenciais para a indústria de inteligência artificial. Para ela, a dependência mundial do processamento desses materiais pela China cria uma oportunidade para que o Brasil amplie sua participação nesse mercado.

Ao abordar os entraves ao crescimento econômico,  Zeina Latif defendeu que o principal desafio brasileiro

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continua sendo a baixa produtividade. Ela citou fatores como a elevada informalidade, distorções tributárias e a formação de mão de obra pouco alinhada às necessidades da economia.

“O Brasil ser o país com maior número de advogados por habitante tem alguma coisa errada”, afirmou. Para a economista, o país forma profissionais em excesso em áreas jurídicas enquanto carece de engenheiros e especialistas em ciência e tecnologia, comprometendo ganhos de produtividade.

Na reta final do debate, Zeina aproximou a discussão da realidade da saúde suplementar. Ela observou que a cobertura dos planos de saúde permanece estagnada há cerca de uma década, alcançando aproximadamente um quarto da população brasileira, enquanto o Sistema Único de Saúde continua responsável pelo atendimento exclusivo de cerca de 75% dos brasileiros.

Na avaliação da economista, o elevado endividamento das famílias e das empresas limita a expansão da

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saúde suplementar, reduzindo a capacidade dos empregadores de oferecer planos como benefício. Diante desse cenário, ela defendeu o avanço de medidas regulatórias que ampliem o acesso da população aos planos privados e contribuam para aliviar a pressão sobre o sistema público de saúde.

O encontro foi encerrado com uma defesa da ampliação do diálogo entre especialistas, representantes do setor produtivo e formuladores de políticas públicas para enfrentar os desafios econômicos, fiscais e regulatórios que devem marcar os próximos anos.

Texto: Kiss Vasconcelos
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